EDUCAÇÃO INCLUSIVA: CONFISSÕES DE UM OTIMISTA!

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Artigo publicado no Informativo Unicead, Montes Claros, abril de 2014 – Ano II – Número 2

Em maio de 2013, após 33 anos, voltei à AACD-Santana, em São Paulo, escola de educação especial em que estudei, convidado para ministrar uma palestra. Interessante que na minha época, existia um muro interno que separava essa unidade do Colégio Buenos Aires, impedindo nós alunos com deficiência em ter contato com os demais. Vi nessa ocasião que esse muro não existia mais e estava tudo integrado. E minha palestra foi na sala de vídeo do colégio onde quando eu era menino não podia pisar. Acabei falando justamente sobre isto com a plateia, em sua grande maioria adolescentes. Em dezembro do mesmo ano outro momento de emoção única. Nos anos 70 participei como aluno na formatura da primeira turma da escola da AACD-Santana. Depois de quase cinco décadas, essa unidade foi desativada, sendo a formatura da última turma por eles estar sendo incluídos em escolas regulares.

Minha infância foi vivida aqui em São Paulo. Adquiri paralisia cerebral durante o meu parto e pelo fato de já muito cedo ter iniciado meus tratamentos, eu era aluno semi-interno na AACD – Associação de Assistência à Criança Deficiente. Ou seja, estudava das 7 horas da manhã até às 18 horas. Dentro desse período tinha as atividades escolares, as mais diversas terapias e momentos para alimentação e recreação. E isso durou toda a década de 70 em um isolamento total. No início dos anos 80 veio a minha primeira virada inclusiva. Mudei-me para uma pequena cidade do interior chamada Guaraçaí e lá fui estudar no grupo escolar regular, o que fez toda a diferença na minha vida. Tive uma adolescência totalmente normal, com todas as possibilidades e aventuras como qualquer amigo da minha idade. O povo do interior tem uma cultura acolhedora e de ajuda mútua. Fui rapidamente acolhido por eles. Um círculo de amigos se formou em minha volta. Eu participava das atividades dentro e fora da sala de aula, das comemorações, brincadeiras de pátio. E essas amizades se estenderam para fora da escola. Brincava e andava com meus amigos por toda a cidade. Íamos nadar, andar de bicicleta, enfim, até bola no campinho em jogava. Saíamos à noite, frequentávamos bares e bailes. A inclusão acontecia naturalmente.

Hoje em minhas aulas e palestras falo muito disso. Tenho 45 anos de estrada e sei que a Educação Inclusiva é totalmente possível desde que seja bem conduzida. Posso dizer que muita coisa já melhorou nesse sentido. Reconheço que a inclusão escolar ainda está com muitos pontos para serem melhorados, estudados e corrigidos. Mas no geral, sou bem otimista em dizer que estamos no caminho certo. Aliás, o Brasil tem a melhor legislação referente às pessoas com deficiência do mundo. Claro, ainda temos muito que melhorar e conquistar. Só que não aguento ouvir pessoas que dizem que nada mudou, os pessimistas de plantão! Melhorou sim, temos muitas coisas boas já para contar! Mesmo que, infelizmente, ainda há de discriminação e barreiras atitudinais que me entristecem, não podemos recuar. A Educação Inclusiva é um movimento bem organizado e podemos ir corrigindo, mudando essas coisas, esses ajustes.

Precisamos de pais comprometidos a participar também desse processo. Qualquer escola precisa estar preparada para receber alunos inclusivos, se atentando para às necessidades específicas de cada criança, terapias e acompanhamentos especializados, o desenvolvimento global de alunos incluídos como os aspectos psicológicos que precisam ser observados, valorização dos pontos positivos de uma deficiência, possibilidades de uma criança se desenvolver em outras áreas que não sejam impostas pelos padrões culturais. Ufa! Isso daria longos artigos…

Há a importância de uma parceira em tripé: Escola, Família e Sociedade! E reafirmo, para que o processo de inclusão escolar de uma criança com deficiência realmente dê certo, será fundamental a participação plena da família junto aos professores e todo o contexto escolar! É um processo pedagógico, mas se puder contar com a afetividade de todos os envolvidos, ajudará muito. Fundamental para o sucesso da Escola Inclusiva não será apenas jogar essa responsabilidade nas costas dos professores. Todas as demais pessoas, diretores, inspetores, atendentes, o pessoal da cantina, da limpeza, da manutenção, os demais alunos, as famílias e comunidade em geral estejam envolvidos no mesmo objetivo.

unicead0002Professores com alunos em processo de inclusão, se necessário, deverão receber apoio e auxiliares na sala de aula. Esses educadores precisão receber treinamentos constantes. A escola poderá ter ou receber de tempos em tempos, a visita dos professores itinerantes e/ou outros especialistas no assunto para avaliar como anda o processo, passar instruções, tirar dúvidas, dar treinamentos. Enfim, o que quero dizer com tudo isso, é que o professor dentro de uma Sala de Aula Inclusiva é o personagem direto da Inclusão Escolar; mas por trás dele, deverá estar todo um arsenal de apoio material e humano. O trabalho em equipe entre os profissionais de uma escola pode contribuir, e muito, para uma convivência harmoniosa, construída coletivamente, que certamente irá refletir na relação educador/educando e no processo de ensino e de aprendizagem.

Eu poderia falar muito mais, aliás, horas e horas sobre Educação Inclusiva. Na verdade ela e a minha história pessoal se fundem. Na década de 70, quando eu estava isolado dentro da AACD ainda não tinha nenhuma consciência política e nem da minha própria deficiência. No ano de 1981, dedicado à Pessoa Deficiente, o movimento ganhou muita força no Brasil e devagar fui tomando consciência dele. Mas digo que sempre gostei mesmo de estar na retaguarda. Minha colaboração mesmo foi na escrita. Enquanto jornalista, publiquei mais de 500 artigos e reportagens sobre essa temática em inúmeras publicações do país. Como pesquisador científico, escrevi muitas monografias e livros sobre pessoas com deficiências dentro da realidade brasileira. Hoje escrevo muitas coisas sobre Educação Inclusiva, dou aulas e palestras sobre essa temática e, sem falsa modéstia, nas últimas quatro décadas assisti como todo esse processo foi construído.

Voltando ao início deste texto, eu estava lá em frente à plateia na formatura da última turma da AACD-Santana. Um filme passava pela minha cabeça. Nasci com uma deficiência motora, paralisia cerebral, que compromete a fala e movimentos. Muito cedo fui para a AACD numa época onde a reabilitação ainda estava no início no Brasil. E isto fez toda a diferença na minha vida. Graças ao tratamento e motivação que recebi, mesmo tendo muitas coisas contra como uma sociedade ainda segregadora, optei por estudar, Tenho duas faculdades, cinco pós-graduações e dois doutorados. Hoje exerço várias atividades, tenho 53 livros e 87 artigos científicos publicados no Brasil e exterior, textos montados no teatro. Faço várias palestras pelo país sobre Educação Inclusiva e/ou Mercado de Trabalho para Pessoas com Deficiência. Viajo sempre sozinho, auto me desafiando a ser cada vez mais independente.

unicead0003Naquele momento para muitos o fechamento da unidade da AACD-Santana significava tristeza. Para mim que vivi essa história significava vitória ao ver que não só o muro havia caído, mas uma escola especial inteira, após cinco décadas inteiras de brilhantes contribuições educacionais, deixou de existir por seus alunos estarem sendo incluídos. Eu estava ali, alguém que um dia foi incluído e agora somando minhas experiências pessoais com minhas atividades de pesquisador e professor que trabalha pela inclusão, sei que isto é totalmente possível. Deus me deu o privilégio de estar nesse momento histórico e discursar aos formandos e aos seus pais. Na verdade hoje eles vivem em uma sociedade muito melhor com consciência inclusiva diferente daquela mentalidade segregadora de quando iniciei a minha caminhada. Disse a eles que, assim como venci estudando, eles têm todas condições de vencerem. Basta colocar Deus na frente e irem à luta!!!