A Educação Inclusiva E A Pedagogia Diferenciada

A escola no transcorrer de sua história, caracterizou-se pela visão elitista da educação onde a escolarização é privilégio de um grupo – uma exclusão que foi legitimada nas políticas e práticas educacionais reprodutoras da ordem social. A partir do processo de democratização da educação se evidenciou o paradoxo inclusão/exclusão, quando os sistemas de ensino universalizam o acesso, mas continuam excluindo pessoas e grupos considerados fora dos padrões colocados pela sociedade. A Educação Inclusiva é, sem dúvida, um dos maiores desafios da sociedade. Desenvolvida na década de 70, ela envolve muito além das pessoas com deficiência, envolve também a família, a escola e a sociedade.

Durante as minhas palestras é comum alguns professores tentar transferir suas responsabilidades, dizendo que muito pouco tem sido feito, a respeito da inclusão, por parte do Governo.

Vejo que ainda temos muito da cultura paternalista de esperar que tudo venha de cima, já pronto tanto no sentido de leis como de investimentos e recursos. Como se tudo pudesse acontecer de maneira mágica por meio de decreto-lei ou simplesmente tendo recursos financeiros, por exemplo. Mas gente, o Governo representa 10% da população. Nós somos os outros 90%. Se quisermos, nós mudamos o mundo!

E com a Educação Inclusiva não é diferente. Defendo que ela só terá sucesso se for realizada de baixo para cima, das bases e com o envolvimento de todos. Creio que um dos caminhos mais certos para a Educação Inclusiva seja a afetividade, o coração.

O professor que se despir de seus conceitos e preconceitos, abrir os braços e receber alunos a ser incluídos, trará um novo universo para dentro do seu universo. E um universo precisa de tempo para ser conhecido, ser explorado sem medos e ansiedades. E as descobertas, se não recalcadas, trarão muito mais coisas positivas. Medos, inseguranças e temores são coisas para fracos, não para pessoas de coragens que já demonstram isso ao escolherem a carreira de professor no Brasil!

Em Educação Inclusiva, o professor, como mediador desse processo inclusivo, precisa conhecer de perto seus alunos, familiarizando-se com as estratégias cognitivas aplicadas por eles na resolução de situações-problema. Dessa forma, poderá ajudá-los, por meio de constantes questionamentos, a elaborar hipóteses que os aproximem cada vez mais da formalização das noções e conceitos trabalhados.

No fazer pedagógico precisa contar com a exploração de temas transversais e a integração entre as diversas disciplinas: ao exercício da cidadania, à aceitação das diferenças e ao desenvolvimento do sentimento de pertinência à nação brasileira.
Por conseguinte, os alunos poderão atuar de forma mais consciente e responsável, reconhecendo-se capazes de agir para transformar.

É a camada Pedagogia Diferenciada ou da Diversidade, pautada na reflexão da prática educativa com um “novo olhar”, sensível às diferenças, atento à dinâmica e às demandas de cada classe como um todo e aos limites e possibilidades de cada aluno, único, singular, porém ao mesmo tempo igual, semelhante em direitos, deveres, necessidades e em valor.

Posso endossar o que estou dizendo com um relato que tive um encontro. Uma aluna de psicologia que trabalhava como professora na Rede Municipal de Mogi das Cruzes, relatou-nos que em sua escola havia três alunos, entre síndrome de Down e deficiência intelectual, sendo incluídos. E com o tempo ela passou a notar um potencial muito grande em certas áreas do desenvolvimento deles.

Vejam que sensibilidade linda, que não está em nenhum manual de regras pedagógicas, teve essa professora. Ela não trouxe para discussão as dificuldades ou impedimentos que poderia ter encontrado ao lidar com a inclusão escolar desses alunos. Ela foi sensível ao ponto de preferir destacar o lado positivo.

E eu lhe disse que se no processo pedagógico essas potencialidades forem focadas e trabalhadas corretamente, eles terão um desenvolvimento muito além das nossas expectativas que serão motivos de orgulho para essa e outras professoras que educam esses três alunos.

Pode até ser que não tenham o mesmo nível de aprendizagem dos demais alunos, se desenvolverão em outras áreas de aptidões e cognições. Mas também por que todos precisam se desenvolver e aprender só as mesmas coisas, não é mesmo?

A Educação Inclusiva é um processo pedagógico, mas se puder contar com a afetividade de todos os envolvidos, ajudará muito. Fundamental para o seu sucesso não será apenas jogar essa responsabilidade nas costas dos professores. Todos, os diretores, os inspetores, os atendentes, o pessoal da cantina, da limpeza, da manutenção, os demais alunos, as famílias e comunidade em geral estejam envolvidos no mesmo objetivo. E se tiver afetividade, melhor!

Enfim, o que quero dizer com tudo isso, é que o professor dentro de uma Sala de Aula Inclusiva é o personagem direto da Inclusão Escolar; mas por trás dele, deverá estar todo um arsenal de apoio material e humano.

O trabalho em equipe entre os profissionais de uma escola pode contribuir, e muito, para uma convivência harmoniosa, construída coletivamente, que certamente irá refletir na relação educador/educando e no processo de ensino e de aprendizagem.

Qualquer escola precisa estar preparada para receber alunos inclusivos. Mas há uma grande necessidade, principalmente por parte dos pais. A importância de se atentar às necessidades específicas de cada criança, terapias e acompanhamentos especializados, o desenvolvimento global de alunos incluídos como os aspectos psicológicos que precisam ser observados, valorização dos pontos positivos de uma deficiência, possibilidades de uma criança se desenvolver em outras áreas que não sejam impostas pelos padrões culturais. Entrando no campo pedagógico, há a importância de uma parceira em tripé: Escola, Família e Sociedade!

Mas então devemos deixar o Governo de lado? Claro que não. Devemos exigir maiores investimentos, verbas, adaptações físicas e de recursos para as escolas. Treinamentos e constantes reciclagens para o pessoal da Educação.

Digo exigir, porque temos outra velha visão cultural que o Governo é um “ser superior” que não podemos alcançá-lo. Esquecemos que quem os coloca lá somos nós com o nosso voto. Que o dinheiro que é negado para a melhoria da Educação e outros setores é nosso, provém dos impostos pagos. Precisamos unir a nossa parte de 90%, deixar de sermos cordeirinho e nos unirmos numa sociedade politicamente articulada, impondo-nos e deixando claro o que queremos para melhorar tanto a Educação Inclusiva como qualquer outro setor que nos é de fato e de direito.

Por causa de uma asfixia durante o parto, o Professor Emílio Figueira adquiriu paralisia cerebral em 1969, ficando com sequelas na fala e movimentos. Mas nunca se deixou abater por sua deficiência motora e vive intensamente inúmeras possibilidades. Nas artes, no jornalismo, autor de uma vasta produção científica, é psicólogo, psicanalista, teólogo e personal coach com formação em Programão Neurolinguística . Como escritor é dono de uma variada obra em livros impressos e digitais, passando de 65 títulos lançados. Ator e autor de teatro. Várias entrevistas na mídia e em jornais. Hoje com cinco graduações e dois doutorados, Figueira é professor e conferencista de pós-graduação, principalmente de temas que envolvem a Educação Inclusiva.

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